A ALMA QUE ME CABE
– Os conservadores e reformados – disse o dono do haras ao jangadeiro – afirmam que a missão é levar as pessoas a abraçarem o nome de seu mestre de modo a evitar o inferno e ganhar o céu; para eles, trata-se de salvar almas não para este mundo, que e irremediável, mas para a vida eterna. Os liberais e libertários afirmam que a missão é transformar este mundo a partir do exemplo revigorante do seu mestre, de modo a construir nesta vida uma estirpe honorária de céu; para eles, trata-se menos de prometer o reino de Deus para a vida futura que implementá-lo contra todos os impedimentos nesta existência. Qual é a sua opinião? Qual dos dois pensamentos está certo?
O jangadeiro terminou de fazer o nó que o incomodava e aspirou a maresia.
– O que sei sobre a vida eterna é que ela é para ser um presente, e presente a gente não deve cobrar nem esperar. O mesmo, você deve entender, posso dizer desta vida. A vida futura que deve me ocupar é o momento seguinte, porque o momento seguinte depende do que faço neste. Salvar as pessoas ou transformar o mundo? Se você pensar, qualquer um desses seria fácil demais, porque tanto o mundo quanto as pessoas estão fora de mim; a metamorfose deles nada exige de mim e para mim nada implica além daquilo que me beneficia. O desafio do legado de Jesus é que eu transforme a mim mesmo. É natural que transformando a mim mesmo estarei transformando o mundo, mas essa não é a questão. A alma que me cabe salvar continuamente é a minha.
Somente assim, nessa confusão; comunhão dos abraços, percebo que o mundo que pretendo e desejo abraçar não é um mundo construído apenas pelo outro que outrora eu pretendia salvar, nem tampouco um mundo estranho que é preciso transformar. O mundo passa a ser expressão de mim mesmo; sou eu também responsável pela feiúra do mundo que pretendo tornar belo. Antes de tentar abraçar o outro e seu mundo, somos chamados a encarar o mundo e o outro como quem olha um espelho: ver a nós mesmos e o mundo que ajudamos a construir. Assumir o desafio perene de que a verdadeira alma que nos cabe é a nossa mesma. A profecia começa sempre pela casa do Senhor.
O jangadeiro terminou de fazer o nó que o incomodava e aspirou a maresia.
– O que sei sobre a vida eterna é que ela é para ser um presente, e presente a gente não deve cobrar nem esperar. O mesmo, você deve entender, posso dizer desta vida. A vida futura que deve me ocupar é o momento seguinte, porque o momento seguinte depende do que faço neste. Salvar as pessoas ou transformar o mundo? Se você pensar, qualquer um desses seria fácil demais, porque tanto o mundo quanto as pessoas estão fora de mim; a metamorfose deles nada exige de mim e para mim nada implica além daquilo que me beneficia. O desafio do legado de Jesus é que eu transforme a mim mesmo. É natural que transformando a mim mesmo estarei transformando o mundo, mas essa não é a questão. A alma que me cabe salvar continuamente é a minha.
[Paulo Brabo. A Bacia das Almas. Editora Mundo Cristão, 2009]
Ao embarcarmos nessa jornada em busca de um “coração que abraça o mundo”, nada mais natural que dedicar a atenção ao mundo que se deve e se quer abraçar: suas dores, imperfeições, mazelas e males, e suas gentes sofridas e vitimadas, ou cruéis, malvadas, violentas e indiferentes. Mas é fato que a tentação de se atirar na direção do mundo a ser abraçado sem a devida atenção ao coração que pretende abraçá-lo compromete a missão. É bom lembrar que também fazemos parte da “multidão” que queremos abraçar. Talvez seja esse exatamente o segredo da missão – abraçar a si mesmo no abraço ao outro, vendo o outro não como estranho, mas um igual; ver o outro não como alma a ser salva, mas reflexo da própria alma que pretende ser instrumento de salvação. O outro não é outro, senão eu mesmo fora de mim. Nele me vejo. Em sua alma a ser redimida enxergo a mim mesmo, também carente de salvação. Descubro no ato de abraçar que a verdadeira alma a ser salva é a minha.Somente assim, nessa confusão; comunhão dos abraços, percebo que o mundo que pretendo e desejo abraçar não é um mundo construído apenas pelo outro que outrora eu pretendia salvar, nem tampouco um mundo estranho que é preciso transformar. O mundo passa a ser expressão de mim mesmo; sou eu também responsável pela feiúra do mundo que pretendo tornar belo. Antes de tentar abraçar o outro e seu mundo, somos chamados a encarar o mundo e o outro como quem olha um espelho: ver a nós mesmos e o mundo que ajudamos a construir. Assumir o desafio perene de que a verdadeira alma que nos cabe é a nossa mesma. A profecia começa sempre pela casa do Senhor.
2009 | Ed René Kivitz
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