CRÔNICAS DE UMA OLIMPÍADA I
Los Angeles, 1984. O estádio olímpico prende a respiração. Um vulto desengonçado surge das sombras do túnel de acesso à pista de atletismo. Um passo de cada vez, vai ganhando luzes e forma. Diante da multidão está um corpo trôpego que se esforça para cruzar a linha de chegada. Os paramédicos correm desordenados trocando olhares como quem busca discernimento para uma decisão nada fácil: até onde permitir aquela marcha aparentemente insana, uma espécie de via crucis. Sob os olhares atônitos e o foco das objetivas que rapidamente as colocaram no centro do palco, seguem aquelas pernas finas trançando uma por dentro da outra, sustentando um corpo que aos poucos vai se amontoando sobre si mesmo, equilibrado apenas pelos braços bambos e descoordenados. Aos poucos a atmosfera do Los Angeles Memorial Coliseum vai sendo envolvida pelo som das palmas, que explodem num vigoroso e definitivo aplauso quando a suiça Gabrielle Andersen-Schiess cruza o último dos 42.195 metros da maratona olímpica.

Considero esta uma cena emblemática dos Jogos Olímpicos. Gabrielle Andersen-Cheiss jamais será esquecida. Seu lugar no olimpo está para sempre preservado. Permanece ao lado de Joan Benoit, ganhadora da medalha de ouro naquela batalha memorável. Na história figura como a mais vitoriosa das derrotas olímpicas. Dependesse de mim a legenda de sua foto seria simplesmente: “a vitória”.

O maior vencedor olímpico não é o atleta que conquista a medalha de ouro, ou mesmo uma medalha, seja de prata ou bronze (Céus, que os medalhistas não me leiam!). A medalha de ouro é um detalhe que se submete a muitas variáveis. Na piscina de 50 metros a distância entre o ouro e a prata é apenas um piscar de olhos. Fatores genéticos, recursos tecnológicos, acompanhamento clínico, nutrição, condições físicas para o treinamento, equipe técnica, apoio financeiro e outros tantos acabam por afetar o resultado mais até que o talento, a dedicação e a disciplina de cada atleta.

A maior batalha de um atleta olímpico não é contra seus adversários. Vencedor não é quem supera o outro, é quem supera a si mesmo. Parafraseando o sábio Salomão, “maior é aquele que conquista a si mesmo do que aquele que conquista uma medalha de ouro” (Provérbios 16.32). Talvez por essa razão o apóstolo Paulo tenha comparado a carreira da fé aos jogos olímpicos (1Coríntios 9.24-27). No podium olímpico apenas um leva o prêmio. Mas no podium da vida todos podem ser coroados vencedores, mesmo aqueles que chegam por último, pois na vida não competimos uns contra os outros para chegar na frente, mas contra nossos próprios limites, simplesmente para chegar.

© 2008 Ed René Kivitz

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