OS SETE PECADOS CAPITAIS
A lista dos sete pecados capitais não consta da Bíblia Sagrada. Foi o monge grego Evagrius do Ponto, no contexto do movimento monástico no deserto do Egito do século IV quem primeiro identificou o que considerava as principais paixões humanas, num total de oito. No século VI o papa Gregório Magno consolidou a lista clássica registrada no Catecismo do catolicismo romano. A intenção era compreender e controlar os instintos humanos básicos. Mais tarde, outros teólogos analisaram novamente a gravidade dos pecados e fizeram uma nova lista. Desde o século XVII, a lista dos pecados capitais mais aceita está assim estabelecida: soberba, avareza, luxúria, ira, gula, inveja e preguiça. Em 10 de março último o Vaticano publicou em seu jornal oficial, o "L’Osservatore Romano", os novos pecados capitais, próprios do mundo contemporâneo, com uma aplicação que vai além dos direitos individuais e com uma dimensão social: manipulação genética, uso de drogas, desigualdade social e poluição ambiental.

Os pecados são chamados “capitais” numa alusão à cabeça (caput em Latim), indicando não apenas o fato de que são raiz, fonte e origem de outros pecados, como também exercem sobre outros pecados uma função de liderança ou governo. Um pecado capital é aquele do qual procedem outros pecados, como por exemplo a ira que dá origem à vingança, ou a soberba que resulta em vaidade. São chamados “capitais” também numa alusão à distinção feita pelo catolicismo romano entre “pecado venial” - falta leve - e “pecado mortal” - falta grave -, que exclui o pecador da felicidade eterna. Finalmente, a tradição ensina que existe uma relação entre os pecados veniais e mortais, pois considera verdadeiro que os pecados veniais também conduzem à pratica dos pecados mortais, isto é, você começa praticando um pequeno ilícito e quando percebe já está comprometido até o pescoço.

O tema é atual e indigesto. Atual porque vivemos uma sociedade cheia de pecados. Todos os dias os jornais noticiam as barbaridades cometidas por esse bicho chamado homem: soberba em forma de impunidade, avareza em forma de extrativismo predatório na Amazônia, luxúria em forma pedofilia, ira em forma de violência urbana, gula em forma de desperdício e produção exagerada de lixo, inveja em forma de revistas de fofoca, e preguiça em forma de mediocridade. Falar a respeito dos pecados capitais é mergulhar na busca do que significa ser humano, especialmente a dimensão que o distingue das bestas feras. A lista dos sete pecados capitais parece um bom gabarito para que se responda à pergunta “que tipo de gente estou me tornando?”.

Mas o tema é também indigesto, pois o conceito de pecado está em xeque. Primeiro, há quem diga que “não existe pecado do lado de baixo do Equador”, essa conversa de pecado é coisa para gente supersticiosa e ignorante. Depois, porque nos foi sugerido que “tudo o que eu gosto é ilegal, é imoral ou engorda”. E também porque vivemos dias de inversão de valores: o que era pecado ontem, hoje é uma virtude. Ian Fleming, criador de James Bond, o famoso 007, concluiu que sem os sete pecados capitais “a vida seria insípida e vazia, e sem uma quantia saudável de muitos deles em nossa composição seríamos covardes ociosos”. Ou como sugere a MTV, ao afirmar que “um pouco de libertinagem, de orgulho, de preguiça e de glutonaria – com moderação – são diversão, e é esse pouco que faz seu coração continuar batendo”. Essa conversa de pecado é para gente sem graça, que não sabe gozar a vida e estraga o prazer dos outros.

A partir desse domingo, convido você a me acompanhar por essa estrada da auto-avaliação, parando nas sete estações que nos colocarão frente a frente com nossas questões mais profundas e nos ajudarão a perceber se a vida está valendo a pena, ou melhor, que tipo de vida vale a pena.

© 2008 Ed René Kivitz

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