Igreja: povo de Deus
O movimento que conduz do ministério como monopólio de homens ordenados para o ministério como responsabilidade de todo o povo de Deus, ordenados ou não, constitui uma das mais dramáticas mudanças da igreja contemporânea (...) É indubitável que Jesus de Nazaré rompeu com toda a tradição judaica quando escolheu seus discípulos não entre a classe sacerdotal, mas dentre pescadores, publicanos e afins. Isso fazia parte do "ministério de romper odres", do caráter de "inversão" presente no ensino de Jesus, de colocar de cabeça para baixo as convenções da época ao opor-se às expectativas humanas normais (...) Além de uma referência questionável em Ignácio, não se aplica o termo sacerdote ao clero cristão até aproximadamente o ano 200 (...) o sacerdote se torna aos poucos um "alter Cristo" (outro Cristo), e adquire a prerrogativa de exercer um papel ativo de consagrar, perdoar pecados e abençoar, enquanto os cristãos ordinários exercem um papel passivo de apenas receber a graça. A Reforma Protestante resgatou o "apostolado dos leigos" ou do "sacerdócio de todos os crentes", dando origem ao "princípio do voluntário" e, por conseguinte, às comunidades cristãs como sendo livres, abertas, responsáveis, abarcando todas as classes, ambos os sexos, todas as idades, as massas populares - um movimento verdadeiramente democrático e antiautoritário e, até certo ponto, também anticlerical e contrário ao "estabilshment" (...) O sacerdócio do ministério ordenado deve possibilitar, e não remover, o sacerdócio da igreja inteira.

Estas considerações de David Bosch, em seu extraordinário tratado Missão transformadora: mudanças de paradigma na teologia da missão, oferecem a síntese do dilema em que a igreja se encontra com relação à maneira como se organiza, mobiliza e governa para a missão. Por um lado, devemos garantir que a igreja seja bem governada, bem pastoreada e bem fundamentada na doutrina cristã, o que exige identificar pessoas vocacionadas por Deus para tal ministério - chamamos essas pessoas de presbíteros. Por outro lado devemos garantir que o ministério da igreja seja prerrogativa, responsabilidade e privilégio de todos os membros da comunidade cristã local. Por esta razão compreendemos que o ministério dos pastores da igreja é diferente do ministério pastoral da igreja. Isto é, o ministério dos pastores da igreja (presbíteros) é viabilizar o ministério pastoral da igreja (todos os cristãos), conforme absolutamente explícito em Efésios 4.11-16.

E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores, querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo; até que todos cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, o homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo, para que não sejamos mais meninos inconstantes, levados em roda por todo o vento de doutrina, pelo engano dos homens que com astúcia enganam fraudulosamente. Antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, do qual todo o corpo, bem ajustado, e ligado pelo auxílio de todas as juntas, segundo a justa operação de cada parte, faz o aumento do corpo, para sua edificação em amor.

A igreja de Jesus Cristo é um movimento leigo: do gr. laos, povo, de onde se conclui: igreja-povo-de-Deus. Jamais foi pretendido por Jesus que um grupo de "cristãos especiais" ocupasse o protagonismo de sua comunidade em detrimento de todos os demais "cristãos comuns". O conceito de "clero", que distingue alguns cristãos como "especialistas em cristianismo", é estranho às páginas do Novo Testamento e principalmente à proposta original de Jesus: "edificarei a minha igreja". O futuro do cristianismo será disputado na arena do conflito entre a institucionalização e a clericalização do ministério-sacerdócio-diaconia-testemunho (martírio) e sua retomada pela totalidade do povo de Deus. É urgente resgatar a ordem na igreja através do legítimo exercício da responsabilidade de zelar pela sã doutrina, o cuidado pastoral e o governo da igreja. É urgente resgatar a realidade de todos os cristãos, indistintamente, como "a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para anunciar as virtudes daquele que nos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz" (1Pedro 2.9).

© 2008 Ed René Kivitz

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