JJ 3054
Mais uma vez nossa cidade foi ferida de morte. Adormecemos na terça última vestidos de luto. Mais um acidente aéreo, desta vez o maior da história da aviação brasileira. Mais uma vez a triste fatalidade de envolver uma aeronave da TAM. Mais uma vez nos arredores do aeroporto de Congonhas. Mais uma vez sob a funesta nuvem de generalizada falha humana: um aeroporto pessimamente localizado - no centro urbano e residencial; em reforma, com uma pista inacabada - faltava o grooving, isto é, as ranhuras que evitam a formação da camada de água que provoca a aquaplanagem da aeronave; e inadequada para o pouso de um Airbus, como foi o caso do avião acidentado que efetuou o fatídico vôo JJ 3054, desde Porto Alegre para São Paulo, apesar de todos os reclamos de pilotos e profissionais correlatos - tragédia anunciada.

A tragédia está cada vez mais próxima de todos nós. Somos passageiros, transeuntes da Avenida Washington Luis, temos colegas de trabalho, amigos e familiares em trânsito pela cidade e em viagens no chão e nos ares. Dentro em pouco seremos todos considerados sobreviventes: um assalto, uma bala perdida, um acidente fatal, a negligência de algum profissional, nossa displicência e descuido, os desmandos e desgovernos das autoridades e as fatalidades, são algumas expressões da sombra da morte que nos cobre a todos.

Atravessamos o vale. O vale escuro assombrado pela morte. Não temos alternativa senão continuarmos a travessia. A vida segue, o trabalho nos espera e o mundo permanece sendo um lugar onde há mais coisas boas do que ruins. Vivemos de esperança. Somos teimosos de utopia. Aguardamos dias melhores. A tragédia não pode nos fazer parar. A escuridão não pode nos impedir de prosseguir amando, gerando filhos, educando nossas crianças, semeando e colhendo, com trabalho e suor, mas com expectativa de recompensa: flor e fruto.

É tempo de chorar a dor do outro como se fora nossa própria dor. É momento de solidariedade, silêncio e respeito. Mas para quem caminha, o vale escuro sempre chega ao fim. O vale é perene para quem fica parado, com medo da morte ou sob o peso de sua sombra. Vida que segue. E com ela seguimos nós. Seguimos, não o curso da vida, que é incerto. Seguimos o Bom Pastor, que vai conosco, vara e cajado na mão. Por causa do Bom Pastor enfrentamos o vale escuro, atravessamos pelo meio da sombra da morte: quando Tu estás comigo, não tenho medo de nada, tenho força, coragem e consolo.

Enquanto caminhamos, oramos. Caminhamos porque a morte foi vencida. Caminhamos porque temos um futuro e uma esperança. E oramos. Intercedemos. Oramos por todos aqueles que de alguma forma foram cobertos pela sombra da morte. Intercedemos para que experimentem a presença de Jesus, o Bom Pastor, e nEle tenham de volta a vida, pois Ele morreu para vencer a morte e para trazer à luz a vida e a imortalidade.

© 2007 Ed René Kivitz

Voltar