As fronteiras do Reino
Se o Reino de Deus fosse uma sinfonia, acolheria a todos que desejassem aprender a tocar música desde tocadores de tuba até tocadores de flautim; de violinistas a percussionistas. Seriam aceitos de iniciantes a mestres de música, sabiamente colocando os noviços ao lado de mentores que pudessem ajudá-los a aprender sua arte. Não poderiam, no entanto, ser acolhidas pessoas que odiassem música ou as que quisessem ficar gritando e berrando sempre interrompendo ensaios e concertos. Certamente a convivência com amantes de música talvez influenciasse aqueles que a odeiam, inclinando-os a admirá-la; no entanto, para que pudessem fazer parte da sinfonia, eles teriam antes de querer estar lá em razão de seu amor pela música.

Se o Reino de Deus fosse um clube só de futebol, iria acolher crianças e adultos, homens e mulheres, iniciantes e craques entretanto, não poderia acolher pessoas que odiassem futebol e quisessem transformá-lo em um clube só de kickboxing.

Se o reino de Deus fosse um hospital, poderia acolher pessoas enfermas que necessitassem de tratamento e cura; médicos e enfermeiras que desejassem servir e tratar dessas pessoas; visitantes que quisessem ver os doentes. Mas não poderiam ser recebidas pessoas que quisessem raptar ou sequestrar bebês da enfermaria ou do berçário, nem médicos que fingissem ter vontade de cuidar, apenas para infligir mais dor aos pacientes e a suas famílias; não poderiam tampouco ser aceitas pessoas que tivessem a intenção de desligar fios e cabos na unidade de tratamento intensivo.

O Reino de Deus, por um lado, foge ao exclusivismo e à rejeição; por outro foge à inclusão insensata e absurda, em um processo de sabotagem própria; segue, pois, pela via da inclusão com sentido e finalidade. Em outras palavras, o Reino de Deus busca incluir todos os que desejam dele participar e contribuir com seu propósito, mas não pode admitir aqueles que se opõem à sua finalidade.

Uma série de declarações enigmáticas [de Jesus] ilustra essa idéia de inclusão com sentido e finalidade: "quem não é contra vocês é a favor de vocês" (Lucas 9.50); "aquele que não está comigo é contra mim e aquele que comigo não ajunta, espalha" (Lucas 11.23). Ambas as declarações fazem sentido: "quem não é contra vocês é a favor de vocês" argumenta contra a exclusão mesquinha e egoísta; e "aquele que não está comigo é contra mim e aquele que comigo não ajunta, espalha" argumenta contra a inclusão ingênua. O propósito do Reino de Deus é o de ajuntar, de incluir, de acolher todos aqueles que estiverem desejando ser reconciliados com Deus e uns com os outros. No entanto, se o reino de Deus acolhesse pessoas que rejeitam esse propósito, iria ficar "dividido contra si mesmo", sendo arruinado. Essa inclusão com sentido e finalidade é o melhor caminho, mesmo não sendo um caminho fácil de se compreender e de se seguir.

(Brian McLaren. A mensagem secreta de Jesus. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2007)

Voltar