A graça que salva, liberta e transforma
O profeta Jeremias pergunta se "acaso pode o etíope mudar a sua pele, ou o leopardo as suas manchas? Então podereis vós fazer o bem, estando acostumados a fazer o mal?" (13.23). Na simbologia antiga, etíope é não apenas o habitante da Etiópia, mas qualquer pessoa de cor negra. Assim como o leopardo representa um gênero de mamíferos que compreende o jaguar, a onça e a pantera, os grandes gatos da floresta. A cor da pele e do pelo não mudam. Mais do que isso, as cores da pele e do pelo não estão no horizonte de controle de quem as possui. Assim como o leopardo não pediu para nascer com suas belas manchas, também o negro não escolheu a cor de sua pele.

Parece que Jeremias está aplicando esta realidade à dimensão da natureza, do caráter, dos hábitos e comportamentos humanos: tal qual o etíope e o leopardo, também o homem não é capaz de fazer o bem, tendo o mal arraigado em sua carne. O Pastor Rubens Lopes, de quem empresto estas reflexões, afirma que "no homem, fazer o mal é um hábito e hábito é como uma segunda natureza. Hábito não: pecado é um instinto porque é uma tendência primitiva, ao passo que o hábito é de formação secundária; enquanto este supõe aprendizado, aquele se caracteriza pela perfeição imediata".

"O homem nasce em pecado - não o adquire depois de nascer", continua o Rubens Lopes, "do mesmo modo que o negro nasce negro e o branco nasce branco e o leopardo nasce manchado". Este é o velho dilema: o homem é pecador porque peca ou peca porque é pecador? Paulo, apóstolo, afirma que o homem peca porque é pecador:

"Porque o que faço não o aprovo; pois o que quero isso não faço, mas o que aborreço isso faço. De maneira que agora já não sou eu que faço isto, mas o pecado que habita em mim. Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; e com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem. Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço. Ora, se eu faço o que não quero, já o não faço eu, mas o pecado que habita em mim. Miserável homem que eu sou! quem me livrará do corpo desta morte?". (Romanos 7.16-24)

Em outras palavras, o homem é tão culpado de pecar quanto o tuberculoso é culpado por tossir. O pecado é uma condição humana, e sua escravidão a esta condição lhe está imposta sem que nada possa fazer para dela se libertar. Aqui residem as boas notícias do evangelho, também nas palavras de Paulo, apóstolo. A primeira é que, em Cristo Jesus, nenhum homem é condenado pela "cor da sua pele", isto é, sua natureza pecaminosa - a carne:

"Dou graças a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor. Pois, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito". (Romanos 7.25, 8.1)

E ainda:

"A mim, que dantes fui blasfemo, e perseguidor, e injurioso; mas alcancei misericórdia, porque o fiz ignorantemente, na incredulidade. E a graça de nosso Senhor superabundou com a fé e amor que há em Jesus Cristo. Esta é uma palavra fiel, e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal. Mas por isso alcancei misericórdia, para que em mim, que sou o principal, Jesus Cristo mostrasse toda a sua longanimidade, para exemplo dos que haviam de crer nele para a vida eterna". (1Timóteo 1.14-16)

A confiança do apóstolo Paulo não estava em sua virtude, mas na graça de Deus, pois "onde o pecado abundou, superabundou a graça" (Romanos 5.20). Por esta razão, além da liberdade da condenação do pecado, o homem está livre também do poder do pecado, pois "assim como o pecado reinou na morte, também a graça reina pela justiça para a vida eterna, por Jesus Cristo nosso Senhor" (Romanos 5.21), e, nesse caso, a graça que salva da condenação é a mesma que transforma o homem para que não viva mais sob o domínio do pecado, isto é, possa "viver sem tossir".

"O nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado. Porque aquele que está morto está justificado do pecado. Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos; Sabendo que, tendo sido Cristo ressuscitado dentre os mortos, já não morre; a morte não mais tem domínio sobre ele. Pois, quanto a ter morrido, de uma vez morreu para o pecado; mas, quanto a viver, vive para Deus. Assim também vós considerai-vos como mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus nosso Senhor. Não reine, portanto, o pecado em vosso corpo mortal, para lhe obedecerdes em suas concupiscências; Nem tampouco apresenteis os vossos membros ao pecado por instrumentos de iniqüidade; mas apresentai-vos a Deus, como vivos dentre mortos, e os vossos membros a Deus, como instrumentos de justiça. Porque o pecado não terá domínio sobre vós, pois não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça" (Romanos 6.6-14).

© 2007 Ed René Kivitz

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