Silvia, mãe de André, de Pedro e das diferenças
Se curso de mãe houvesse, Silvia seria professora-doutora. Essa pedagoga de 38 anos é mãe da terra e do mar, do vinho e da água, do tangível e do intangível. Ela tem dois filhos: André, 10 anos, é superdotado e Pedro Henrique, 8 anos, é autista. Silvia é a mãe dos extremos e isso, ela diz, é uma lição diária de respeito às diferenças, de paciência com o que a gente não pode mudar, de aceitação do outro com todas as suas características de fabricação.

É tolice imaginar que a maternidade é um talento impresso no código genético da mulher. A gente aprende a ser mãe, ou não aprende, ou aprende mais ou menos. Quando André tinha um ano e meio, Silvia deu o primeiro salto no seu aprendizado dessa delicada profissão. Numa longa viagem de avião, ela tentava distrair o menino com revistas de bordo. O bebê apontava para as letras graúdas e murmurava sons ininteligíveis de um humano querendo encontrar a linguagem.

B de bebê, V de vovô, P de papai, A de André, dizia a mãe para o bebê murmurante. Ao fim da viagem, o menino já sabia reconhecer as letras onde quer que as visse. Logo, estava soletrando sílabas, aos 3 anos já lia textos longos. Silvia sabe que tem de estimular a facilidade que ele tem para certos conhecimentos, mas tem sempre de apontar para o difícil da vida, sejamos superdotados, medianamente dotados ou subdotados. ''Só quero que ele seja feliz'', diz ela.

É André quem ensina a mãe a perseguir a honestidade, a coerência, a não dissimular. ''Ele é muito sensível. Percebe as coisas mais subliminares''. Mãe e filho revezam-se no jogo amoroso de ensinar e aprender, aprender e ensinar.

Iam assim, quando Silvia estranhou o comportamento do segundo filho que, com um ano e meio de idade, não respondia a seus estímulos, não balbuciava nenhum som. A família - marido, irmãos, mãe - reagia: ''Você quer comparar o André com o Pedro Henrique. Você quer que o Pedro seja igual ao André. Você tem de aceitar que o Pedro não é superdotado''. Argumentos inúteis para uma mãe intranqüila.

''Eu aceito o que ele é quando eu souber o que ele é'', respondia Silvia. Um dia, ela foi buscar o menino mais cedo na escolinha, encontrou toda a turma enfileirada para uma atividade de educação física e Pedro Henrique sozinho, dando voltas em torno de si mesmo, Rain Man na primeira infância. Renovou os exames que já vinha fazendo havia algum tempo e soube então que seu filho era autista.

Lá se vão quase seis anos de entrega incondicional a um filho que está preso a um universo desconhecido, absoluto, só dele. Mãe de um filho que não a reconhece como tal, que não estabelece relações afetivas, para quem o outro é um objeto, um nada. Silvia sabe que é e será sempre assim, a menos que a ciência descubra a chave desse cofre tão hermeticamente fechado.

Com Pedro Henrique, Silvia aprendeu a amar sem exigir que o outro mude, porque ele não vai mudar. Lamenta a dor das muitas mães de autistas que se dilaceram na esperança de que o filho um dia escape de sua prisão corpórea. Um amor que não suporta o presente e se projeta num futuro que não se sabe se virá.

Silvia aprende com André, ensina para Pedro, Pedro ensina para Silvia, que ensina para quem souber aprender. ''Eu o amo hoje, com a sua singularidade. O que eu quero é que ele sobreviva ao autismo. Que ele seja um adulto auto-suficiente, que possa morar sozinho, que saiba trocar de roupa, cuidar de si mesmo. Porque eu um dia vou morrer''. Quinta-feira passada, Pedro Henrique pulou no colo da mãe, trançou suas pernas no corpo dela e lhe deu um abraço forte, porém silencioso. Abriu uma portinha de afeto e depois trancou-se novamente. Foi seu presente do Dia da Mães.

Conceição Freitas, jornalista

Publicado no jornal O Correio Brasiliense, no Dia das Mães de 2003

Silvia de Mattos Duarte é membro da 3ª Igreja Batista do Planalto, em Brasília, e irmã do Alberto de Mattos, da Ibab

Voltar