O Deus esvaziado
A Bíblia ensina que Jesus é Deus esvaziado, Deus em forma humana, em forma de servo (Filipenses 2.5-8). Jesus é Deus conosco, isto é, Deus se revela e se relaciona conosco em Jesus (João 1.14,18; Hebreus 1.1-3). Em Jesus, Deus está esvaziado, pois sua onipotência foi limitada pela fé dos que a ele se achegavam (Mateus 13.53-58), sua onisciência foi limitada pelo Pai (Mateus 24.36) e sua onipresença foi limitada pela própria encarnação.

Deus é onipotente, onisciente e onipresente. Mas a maneira como se relaciona no céu é diferente da maneira como se relaciona na terra. No céu Ele faz tudo quanto lhe agrada e reina soberano. Na terra Ele age em e com as pessoas que atendem seu convite para a comunhão em seu Filho (Salmo 115.3,16; Mateus 6.10; 11Coríntios 1.9).

Na terra, o Deus esvaziado se relaciona com base no critério da liberdade. Na parábola do filho pródigo, ou dos filhos perdidos, o filho mais novo pede a sua parte da herança e vai embora da casa do pai. Naquela época e cultura, o pedido equivaleria a dizer mais ou menos o seguinte: "Pai, tudo o que quero é que o senhor morra. Tudo o que me interessa é seu talão de cheques". O impressionante é que o pai não faz oposição a esse desejo do filho. O critério é a liberdade: "Você quer ir, meu filho, eu lamento, mas não vou amarrar você ao meu lado, nem obrigar você a conviver comigo contra a sua vontade. Siga seu caminho". O Deus esvaziado não mantém relacionamentos à força, mediante manifestação do seu poder e imposição de sua autoridade soberana. O Deus esvaziado dá um passo atrás, para que você possa exercer sua liberdade de existir com Ele ou contra Ele.

O Deus esvaziado se relaciona com base no critério da interpelação. O filho mais velho se recusa a participar da festa que o pai promove para se alegrar com o retorno do filho mais novo, que estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado. O pai vai ao encontro do filho mais velho e o interpela, o confronta e o coloca diante da necessidade de uma decisão. Mas não decide por ele, nem o obriga a se submeter à sua vontade.

O pai não exige obediência dizendo "Enquanto você estiver na minha casa fará as coisas do meu jeito". O pai interpela o filho e espera tocar sua consciência, para que, semelhantemente ao filho mais novo, ele também "caia em si" e experimente uma transformação de dentro para fora, de modo que sua submissão à vontade do pai seja um ato voluntário e consciente de ser a melhor escolha.

Quem espera uma vida melhor como resultado da intervenção do Deus onipotente, onipresente e onisciente, acaba se frustrando e sucumbindo em culpa e incredulidade. Quem espera ser uma pessoa melhor e andar em comunhão com Deus, numa relação de amor e liberdade, respondendo suas interpelações e desfrutando sua presença e doce companhia é capaz de enfrentar a vida, qualquer que seja ela.

© 2007 Ed René Kivitz

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