O mundo precisa de mais malucos
Um em cada dezesseis versículos do Novo Testamento, um a cada dez em Mateus, Marcos e João, um a cada sete em Lucas referem-se ao dinheiro ou aos pobres. No Antigo Testamento, apenas a idolatria é mencionada mais vezes do que o relacionamento entre os ricos e os pobres (...) No começo do século passado, os dez países mais ricos tinham nove vezes mais riquezas do que os dez mais pobres. Em 1960, a proporção era de 30 para 1. No início deste século, a renda média per capta nos vinte países mais ricos é de US$ 27.591 e nos países mais pobres, apenas de US$ 211 - uma proporção de 131 para 1. Mais da metade da população do mundo vive com 2 dólares por dia, e mais de 1 bilhão de pessoas têm apenas 1 dólar por dia para morar, comer e vestir.
(Fonte: Jimmy Carter, Nossos valores em risco: a crise moral dos EUA, Editora Manole)

Estas são duas razões suficientes para que os cristãos se comprometam com o serviço solidário e a busca da justiça social: o imperativo bíblico e a realidade mundial. Na verdade, ninguém deveria mais ter qualquer dúvida a respeito da dimensão social e política da fé cristã. As discussões agora giram em torno dos limites do engajamento cristão: dar o peixe, ensinar a pescar, cuidar da saúde do pescador, facilitar o crédito para que o pescador compre sua vara, arrumar lugar pra todo mundo nas margens dos rios, criar oportunidades para que o pescador fuja dos atravessadores, abrir mercados para que todos os pescadores tenham como vender seus peixes e assim por diante.

O que sabemos é que passou o tempo da mera filantropia, no sentido de obras de caridade e ajuda aos pobres. No mundo em que vivemos, a mera ajuda equivale a enxugar gelo. Pobres precisam de muito mais do que caridade e ajuda. Precisam de justiça. Assumir o compromisso bíblico com a solidariedade em nome de Jesus e como sinal do reino de Deus implica, portanto, muito mais do que a contribuição eventual ou uma sensibilização pontual, que se desvanece com o correr dos dias. Praticar a justiça implica um estilo de vida e uma utopia.

Um estilo de vida, porque não basta servir de vez em quando, é preciso ser servo. Não é uma questão de fazer, mas de ser, e isso se reflete na consciência cidadã, na responsabilidade ecológica, no consumo consciente, na excelência no exercício da vocação e da profissão, na formação de uma nova geração. Uma utopia porque o compromisso com o reino de Deus implica um confronto sem tréguas entre as culturas da luz e das trevas, e os cristãos somos apaixonados pela luz. Buscamos o reino de Deus antes e acima de tudo.

Hans Tendam, em seu livro Politics, civilization & humanity, resumiu bem a situação:

Só alguns estão satisfeitos com o mundo como ele é.
Só alguns poucos acreditam que eles possam transformar este mundo.
O primeiro grupo é feliz, mas deve ser meio maluco.
O segundo grupo só pode ser mesmo maluco.

O mundo precisa de mais malucos.

© 2006 Ed René Kivitz

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